Deficiência ou vantagem?

Questões relativas à igualdade ou à equiparação de condições entre atletas já não são simples. Quando envolvem, então, a comparação de desempenho entre pessoas com diferentes desvantagens ou auxílios, elas ficam ainda mais complexas e podem dividir opiniões.

O caso do atleta sul-africano Oscar Pistorius, de 22 anos, conhecido como Blade Runner (“corredor lâmina”) é um exemplo. Após sofrer amputação das duas pernas abaixo dos joelhos quando tinha apenas 11 meses de idade, ele aprendeu a andar com o auxílio de próteses e se tornou tenista e jogador de rúgbi. Depois de uma lesão no joelho, passou a se dedicar ao atletismo e virou um corredor de destaque.

Em meio à comoção causada pelos seus recordes, um debate veio à tona: e se a sua aparente desvantagem, ao correr com próteses, fosse na verdade uma vantagem tecnológica? Ele poderia competir em condições de igualdade com atletas típicos ou paraolímpicos? Isso levou a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) a promover um estudo comparativo do seu desempenho em relação a seis corredores sem deficiências, para analisar, entre outros fatores, apoio e forças de reação recebidas do solo, armazenamento e retorno da energia elástica, consumo de oxigênio e produção de ácido lático. As conclusões foram de que as próteses de Pistorius lhe forneciam uma vantagem de pelo menos 25% em relação aos demais corredores.

Para Pistorius, o resultado do estudo não é válido, pois as suas desvantagens não foram consideradas, e o Comitê Paraolímpico Internacional (IPC) solicitou à IAAF outro estudo para avaliar, por exemplo, o impacto da amputação no contato entre a perna e a prótese e a perda de energia ou de geração de força nas articulações do joelho e dos quadris.

O debate suscita opiniões divergentes entre os próprios atletas paraolímpicos. Para alguns, a concorrência entre atletas com e sem deficiências físicas  não é possível, devido às próprias diferenças biomecânicas.

Ainda assim, vemos que não se trata de uma questão simples. Eu mesma consigo imaginar argumentos favoráveis a um e a outro lado, mas sem chegar a uma solução justa para o problema (aliás, será que ela existe?). O fato é que a questão levantada pelo desempenho de Pistorius nas pistas envolve aspectos éticos e científicos, e muito ainda deve ser discutido e levado em conta para se chegar a um consenso. Mais: não há como prosseguir com a discussão sem quebrar alguns paradigmas em torno da deficiência e do desempenho humano, e talvez isso seja o mais importante.

Enquanto isso, Pistorius continua seguindo em frente, o mais rápido que puder.

Oscar Pistorius e suas próteses: desvantagem ou auxílio?

Oscar Pistorius e suas próteses: desvantagem ou auxílio?

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