LER/DORT – Definição, fisiopatologia, fatores de risco e características

Doenças relacionadas ao trabalho não são uma novidade. Desde a antiguidade existem relatos esparsos sobre dor relacionada ao trabalho, mas só no início do século XVIII foi publicado, por Bernardino Ramazzini (considerado o Pai da Medicina do Trabalho), o primeiro trabalho sobre a relação entre alguns tipos de ofícios e danos à saúde, como no caso de escribas e notários.

Com a evolução das tecnologias e as decorrentes mudanças na organização do trabalho, observou-se um aumento vertiginoso no número de casos de LER (lesões por esforços repetitivos)/DORT (distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho) em trabalhadores, tornando clara a associação entre esses distúrbios e fatores relacionados ao trabalho. Apesar da evolução do conhecimento a respeito de tais distúrbios, as características atuais do mundo do trabalho (como estabelecimento de metas e produtividade elevada, aumento da jornada, monotonia, permanência por longos períodos na mesma postura, mobiliário e equipamentos desconfortáveis, movimentação repetitiva, alta competitividade e monitoramento constante) são incompatíveis com a saúde dos trabalhadores e seus limites físicos e emocionais.

Atualmente, os casos de LER/DORT são comuns em várias categorias de profissionais: digitadores, bancários, telefonistas, operadores de telemarketing, operadores de caixa, programadores, operários de linhas de montagem, auxiliares de enfermagem, dentistas, costureiras, cabelereiros e diversos outros.


Definição

Existem algumas controvérsias entre profissionais e estudiosos a respeito da linguagem e da diferenciação entre LER e DORT. Para começar, as LER/DORT não representam uma doença, e sim um conjunto heterogêneo de afecções do sistema músculoesquelético relacionadas ao trabalho.

Alguns autores diferenciam LER e DORT, ao passo que muitos outros usam esses termos de forma intercambiável. Para os primeiros, as LER podem não estar diretamente relacionadas ao contexto ocupacional, como no caso de uma criança que passa muito tempo jogando no computador ou em videogames, com movimentos repetitivos e postura inadequada (o que pode causar lesões de estruturas nervosas e musculoesqueléticas).

Em 1998 o INSS, através da Ordem de Serviço 606/98, introduziu o termo DORT, equiparando-o ao termo LER. A Instrução Normativa INSS/DC 98 de 2003, que revisa a OS 606/98, utiliza a terminologia LER/DORT, mas explica em sua introdução que

“A terminologia DORT tem sido preferida por alguns autores em relação a outros tais como: Lesões por Traumas Cumulativos (LTC), Lesões por Esforços Repetitivos (LER), Doença Cervicobraquial Ocupacional (DCO), e Síndrome de Sobrecarga Ocupacional (SSO), por evitar que na própria denominação já se apontem causas definidas (como por exemplo: “cumulativo” nas LTC e “repetitivo” nas LER) e os efeitos (como por exemplo: “lesões” nas LTC e LER)”

De acordo com a mesma portaria, pode-se entender LER/DORT como:

“uma síndrome relacionada ao trabalho, caracterizada pela ocorrência de vários sintomas concomitantes ou não, tais como: dor, parestesia, sensação de peso, fadiga, de aparecimento insidioso, geralmente nos membros superiores, mas podendo acometer membros inferiores. Entidades neuro-ortopédicas definidas como tenossinovites, sinovites, compressões de nervos periféricos, síndromes miofaciais, que podem ser identificadas ou não. Freqüentemente são causa de incapacidade laboral temporária ou permanente. São resultado da combinação da sobrecarga das estruturas anatômicas do sistema osteomuscular com a falta de tempo para sua recuperação. A sobrecarga pode ocorrer seja pela utilização excessiva de determinados grupos musculares em movimentos repetitivos com ou sem exigência de esforço localizado, seja pela permanência de segmentos do corpo em determinadas posições por tempo prolongado, particularmente quando essas posições exigem esforço ou resistência das estruturas músculo-esqueléticas contra a gravidade. A necessidade de concentração e atenção do trabalhador para realizar suas atividades e a tensão imposta pela organização do trabalho, são fatores que interferem de forma significativa para a ocorrência das LER/DORT.”

Ressalte-se que alguns autores também utilizam a terminologia AMERT (afecções músculo-esqueléticas relacionadas ao trabalho) para se referir a esses distúrbios.

Fisiopatologia e etiologia / fatores de risco

Como as LER/DORT correspondem a uma gama de afecções com sinais clínicos variáveis e são fruto da interação de vários fatores (ambiente físico, contexto socioeconômico e cultural, organização do trabalho e fatores orgânicos e psicológicos), a sua etiologia é complexa, bem como a clareza de sua associação e causalidade com o trabalho.

Porém, os quadros de LER/DORT têm em comum o fato de não resultarem de lesões súbitas (como acidentes de trabalho) e estarem associados a traumatismos de fraca intensidade e repetidos ou mantidos por longos períodos sobre as estruturas musculoesqueléticas ativadas, que podem contrair-se repetidamente, sem tempo para recuperação, enquanto outras trabalham  constantemente para manter determinada posição  através de contrações isométricas.

Durante as contrações musculares ocorre aumento da pressão intramuscular, o que leva à compressão dos vasos sanguíneos intramusculares. Com isso, a nutrição dos músculos ativos pode ser diminuída. Quando há contração muscular e logo depois descanso, a irrigação sanguínea volta ao normal, sem prejuízos para a nutrição dos músculos. Quando as contrações são repetidas ou mantidas por longos períodos, sem descanso apropriado, ocorrem modificações bioquímicas nos músculos: a diminuição na irrigação leva ao déficit de oxigênio (isquemia) e de nutrientes na região. Assim, o músculo funciona em condições anaeróbicas e ocorre fadiga, além do aumento na concentração de metabólitos tóxicos, que não são adequadamente removidos, como lactato. A contração repetida também leva a atrito dos tendões e microdilacerações na inserção músculo-tendão. A ocorrência constante desses mecanismos leva a uma resposta inflamatória ou degenerativa dos tecidos musculoesqueléticos, ocasionando dor, fadiga muscular e edema. Além disso, a compressão dos nervos da região ocasionada pela contração repetida diminui a condução nervosa e causa parestesias (formigamento e/ou diminuição da sensibilidade).

Para saber mais sobre esses mecanismos, veja o resumo da apresentação “LER: Fisiopatologia”, de Ada Ávila Assunção e o artigo “Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho: um enfoque ergonômico”, de Wilson Luiz Przysiezny.

Saliente-se que, em vista da complexidade causal dos quadros de LER/DORT, os fatores biológicos não podem ser considerados como uma causa exclusiva. Como já dito, esses distúrbios são consequência da integração entre diversos fatores, cuja influência, em muitos casos, é praticamente impossível de ser isolada e quantificada. Para mais informações sobre algumas abordagens “parciais ” do tema (perspectivas psicologizante, socializante e biologizante), sugiro que consultem o artigo “LER/DORT: multifatorialidade etiológica e modelos explicativos”, de Chiavegato Filho e Pereira Jr.

Quanto aos fatores de risco, devemos considerar os seguintes elementos para caracterizá-los (conforme a Instrução Normativa nº 98/03, citada acima):

a) a região anatômica exposta aos fatores de risco;

b) a intensidade dos fatores de risco envolvidos;

c) a organização temporal da atividade (duração do ciclo de trabalho, distribuição de pausas ou estrutura de horários);

d) o tempo de exposição aos fatores de risco.

Já os grupos de fatores de risco podem ser relacionados com:

a) grau de adequação do posto de trabalho à zona de atenção e à visão;

b) frio, vibrações e pressões locais (mecânicas) sobre os tecidos moles e trajetos nervosos;

c) posturas inadequadas: três mecanismos relacionados à postura podem causar LER/DORT:

c.1) limites da amplitude articular;

c.2) força da gravidade, que ofere uma carga suplementar sobre articulações e músculos;

c.3) lesões mecânicas sobre diferentes tecidos;

d) carga osteomuscular, que pode ser entendida como a carga mecânica decorrente:

d.1) de uma tensão (por ex., a tensão do bíceps);

d.2) de uma pressão (por ex., a pressão sobre o canal do carpo);

d.3) de uma fricção (por ex., a fricção de um tendão sobre a sua bainha);

d.4) de uma irritação (por ex., a irritação de um nervo).

Entre os fatores que influenciam a carga osteomuscular, encontramos: a força, a repetitividade, a duração da carga, o tipo de preensão, a postura do punho e o método de trabalho;

e) a carga estática. Ela está presente quando um membro é mantido numa posição que vai contra a gravidade. Nesses casos, a atividade muscular não pode se reverter a zero (esforço estático). Três aspectos servem para caracterizar a presença de posturas estáticas: a fixação postural observada, as tensões ligadas ao trabalho, sua organização e conteúdo;

f) a invariabilidade da tarefa, que implica monotonia fisiológica e/ou psicológica;

g) as exigências cognitivas, que podem ter um papel no surgimento das LER/DORT, seja causando um aumento de tensão muscular, seja causando uma reação mais generalizada de estresse;

h) os fatores organizacionais e psicossociais ligados ao trabalho, como as percepções subjetivas que o trabalhador tem dos fatores de organização das exigências do trabalho (considerações relativas à carreira, à carga e ritmo de trabalho e ao ambiente social e técnico do trabalho).

Para saber mais sobre alguns  fatores de risco apresentados na literatura, consulte o Protocolo de atenção integral à Saúde do Trabalhador de Complexidade Diferenciada sobre LER/DORT, do Ministério da Saúde.

Sinais e sintomas

Em geral, os sintomas têm início insidioso (gradativo), são intermitentes (aparecem no final da jornada de trabalho ou em picos de produção e desaparecem com o descanso), de curta duração e leve intensidade. Os trabalhadores, por desconhecimento ou medo de perderem o emprego, costumam ignorá-los ou mascará-los com certos medicamentos, até que seu aumento e gravidade levem a dificuldades na realização do trabalho e das tarefas diárias, além de alterações no comportamento e no humor (depressão, ansiedade ou irritação, por exemplo). Entre as queixas mais comuns, podemos citar:

  • Dor (localizada, irradiada ou generalizada) ou desconforto;
  • Fadiga;
  • Sensação de peso nos membros;
  • Formigamento, dormência e/ou sensação de choque nos membros;
  • Sensação de diminuição de força;
  • Falta de firmeza nas mãos;
  • Edema;
  • Enrijecimento muscular.

Se tais sintomas não forem percebidos a tempo, o indivíduo pode continuar se submetendo às mesmas condições de trabalho e agravar progressivamente seu quadro. Nas fases mais avançadas, os sintomas aparecem sem fator desencadeante aparente (ou em resposta a estímulos mínimos) e de forma mais intensa e contínua, com enormes prejuízos para a realização de atividades e da qualidade de vida, tanto do indivíduo acometido como de seu círculo familiar, social e de trabalho.

Aspectos legais

Doenças relacionadas ao trabalho têm implicações legais para os indivíduos acometidos e seus empregadores, o que pode interferir (positiva ou negativamente) no processo de diagnóstico e intervenção. Existe uma ampla legislação para regulamentar as condições de trabalho que interferem na saúde e assegurar os direitos do trabalhador. Essa legislação precisa acompanhar continuamente a evolução do conhecimento na área, mas o mais importante é que o seu cumprimento seja observado para que as condições para manutenção e promoção da saúde no trabalho sejam satisfeitas.

Bem, é isso. Como se trata de um assunto amplo, resolvi abordar primeiramente os aspectos relacionados à conceituação e caracterização das LER/DORT. Em um próximo post, falarei sobre aspectos relacionados à prevenção e ao tratamento, especialmente de Terapia Ocupacional.

Para saber mais (além das referências citadas ao longo do post):

Informações gerais sobre LER/DORT:

Site Banco de Saúde

Site Lerdort.com.br

Site Saúde em Movimento

Legislação:

Consulta à legislação no site do Ministério da Previdência Social

Consulta à legislação no site do Ministério da Saúde

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3 Respostas

  1. Achei essa matéria sobre LER/DORT basante enriquecedora. Percebi bastante coerencia nos fatos e fidedigna.

  2. Gostei da matéria,mas gostaria de sugerir que a pessoa que publicou,colocasse seu nome completo.Pois se eu quiser citar essa publicação,terei que usar apenas o site,e o correto é citar o autor da pulicação,em um trabalho científico por exemplo.

    • Obrigada pela sugestão, Maria Joelma. No entanto, esclareço que não se trata de um artigo ou matéria escrita para publicação formal e copiada no blog, e sim um post (escrito por mim – mais informações a este respeito na aba “Autora”) com informações sobre LER/DORT organizadas de forma sucinta, com referências ao final para quem busca maiores esclarecimentos. De qualquer forma, nunca utilizo informações de outras fontes sem citá-las, e ao longo e ao final do post é possível verificar as referências (inclusive com link, quando possível). Como se trata, porém, de um post em um blog, e não de trabalho científico para publicação, as referências – embora presentes, claro – não são citadas de acordo com uma convenção formal. Da mesma maneira, no caso de posts que reproduzem matérias – na íntegra ou apenas trechos – de autoria de outras pessoas, esta informação sempre está registrada.
      Mais uma vez, obrigada pelo comentário e pela visita ao blog. Abraços!

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