Se você já fez faculdade ou está fazendo, responda rápido: quantos homens havia (ou há) na sua turma? Se você for Terapeuta Ocupacional ou está estudando para ser um(a), certamente você nem titubeou para quantificar. Claro, distinguir um, dois ou três homens em uma classe cheia de mulheres não é nada difícil…
O predomínio feminino na profissão não é exclusividade nossa; na verdade, áreas ligadas ao “cuidar”, além de outras relacionadas às ciências humanas e à educação, são dominadas por mulheres, como enfermagem, serviço social, fonoaudiologia, fisioterapia, pedagogia e psicologia, apenas para citar algumas.
De fato, nossa sociedade associa esses trabalhos a características consideradas inerentemente femininas, como paciência, senso maternal, delicadeza e sensibilidade. Para muitos, inclusive, tais características são definidas biologicamente, e para outros os fatores sociais são determinantes. Não vou discutir aqui o peso que cada um desses fatores pode ter, já que isso dá um livro (ou vários!), só adianto que não podemos nos prender a extremos. Afinal, certas diferenças entre os sexos são óbvias, mas muito do que consideramos feminino ou masculino é consequência de concepções sociais e culturais profundamente arraigadas. E tomar essas concepções de forma acrítica para pensar sobre a questão de gênero no trabalho acaba levando ao reforço de estereótipos – que, sabemos, podem não ser nada positivos.
Nesse blog, por exemplo, a autora, estudante de Enfermagem, fala sobre a ligação de vários estereótipos com essa profissão ao longo do tempo, e toca em um ponto importante: a da imagem da mulher como inferior e subserviente – no campo profissional, isso se refletiu historicamente na submissão à figura do médico. A questão da subserviência e do feminino também é abordada por Mirla Cisne, assistente social, em sua dissertação de mestrado sobre as mulheres e o Serviço Social. Segundo ela, o “Serviço Social, com sua marca histórica de ‘feminização’, carrega a desvalorização e a subordinação de uma profissão exercida por mulheres devido à desigualdade estrutural de gênero” (parênteses para esclarecer: ela não diz, de forma simplista, que a culpa é das mulheres, ok? apenas faz uma observação de fatos e elementos históricos, culturais e sociais). E continua com outra colocação que também pode ser estendida ao nosso caso: “Sendo predominantemente feminino, o Serviço Social, como todas as demais profissões tidas como ‘femininas’, ‘para mulheres’, carrega um estatuto de subalternidade conferido historicamente pelas relações desiguais estabelecidas na sociedade.” E cita Sônia Heckert (também autora na área do Serviço Social) com uma interessante observação: “A baixa remuneração e o desprestígio social são duas consequências da concentração feminina em determinadas carreiras”. Em outro artigo sobre a atuação feminina, dessa vez na Psicologia, as autoras (Ana Maria Vilela, Dejane dos Santos e Lucila Lima) escrevem que: “Sabemos que um dos caminhos que levam a mulher para o espaço público é a sua profissionalização e entrada no mercado de trabalho, exercendo funções que, entretanto, não a desvinculavam da imagem de cuidadora da família. Neste caminho, os espaços por ela ocupados se transformaram, sendo exemplar o processo de feminilização da educação, antes um campo profissional ocupado sobretudo por homens e que possuía grande prestígio social e que, posteriormente, a partir da entrada feminina, sofreu um significativo processo de desvalorização que teve como conseqüência, por exemplo, a decadência dos salários e das condições trabalhistas.”
Tais considerações são muito interessantes e abrem campo para uma série de discussões que envolvem também a inserção e a consolidação profissional de campos dominados por mulheres, mas é fundamental acrescentar outra colocação de Mirla Cisne em sua tese para não chegarmos a conclusões precipitadas ou desvirtuadas: “É importante (…) não atribuir essa subalternidade e/ou marginalidade da profissão ao fato de ela ser exercida, em sua maioria, por mulheres, como se um simples processo de inversão ou de entrada de um número significativo de homens fosse revertar essas implicações, o que reforça a supremacia hierárquica dos homens na sociedade. Pensar assim é estar na contramão das análises numa perspectiva de gênero que possibilitam perceber que essa subalternidade é fruto de uma construção social, portanto histórica, e não de uma essência natural feminina. Ou seja, não é por ser exercida em sua maioria por mulheres que a profissão carrega um estatuto de subalternidade, mas pelas construções sócio-históricas em torno do feminino” (grifos meus).
No artigo “Trabalho de Mulher? Um levantamento sobre profissão e gênero”, os autores Raquel Belo, Tâmara Souza e Leôncio Camino relatam os resultados da sua pesquisa que consistiu em entrevistar uma amostra aleatória de homens e mulheres e pedir para que citassem profissões e atividades consideradas socialmente mais adequadas para cada sexo e falassem sobre sua opinião a respeito. As cinco atividades “femininas” mais citadas foram: empregada doméstica, enfermeira, secretária/telefonista, manicure/esteticista/cabeleireira e pedagoga/professora infantil, enquanto as “masculinas” foram: pedreiro/encanador/pintor, motorista, mecânico, policial/delegado/militar e engenheiro. Os homens entrevistados se mostraram mais propensos a acreditar na segmentação das profissões em função do sexo. Outra observação dos autores corrobora o que já foi dito acima a respeito da subserviência associada a profissões “femininas”, quando falam sobre a inserção da mulher no campo de trabalho: por volta dos anos 40 e 50, quando essa inserção começou a ocorrer de maneira mais forte, os trabalhos realizados pelas mulheres “caracterizavam-se pela subordinação à hierarquia masculina, sendo inclusive denominados ‘atividades de apoio’”.
Ao longo do tempo esse quadro vem mudando, mas ainda se percebe como o senso comum influencia na escolha da profissão. Segundo as autoras do artigo “Profissão e gênero: uma questão biológica ou social?” (referências abaixo), “dados recentes revelam que as meninas que concluem o Ensino Médio continuam candidatando-se no exame de vestibular em muito maior proporção nos cursos considerados ‘tradicionalmente femininos’, nas áreas de ciências sociais e humanas. (…) Uma das prováveis explicações seria a persistência de estereótipos sexuais na educação, ao lado da pressão da sociedade patriarcal ainda existente no Brasil.”
Mulheres e produção científica
Um achado nas referências que busquei é preocupante: no artigo sobre mulheres na Psicologia (já citado acima), as autoras relatam que “No campo científico da Psicologia observamos que, apesar de inúmeras mulheres escreverem artigos, publicarem trabalhos em livros e revistas, realizarem experimentos, os mesmos não ultrapassaram a barreira do tempo para chegar até nós com a mesma relevância que foi dada aos estudos realizados por homens”, e completam pouco depois: “Temos muitos casos de ‘invisibilidade’ do trabalho feminino, não só na psicologia como em outras disciplinas”. Elas fizeram um levantamento quantitativo de artigos escritos por mulheres e homens em determinado periódico ao longo de vários anos e verificaram que havia um número um pouco maior de artigos escritos por mulheres, mas a sua produção não foi visível ao longo do tempo; elas questionam, então, qual o motivo para que isso aconteça (duvidam, inclusive, que seja questão de qualidade, e apostam na valorização do trabalho feminino para superar isso).
De acordo com reportagem na revista eletrônica ComCiência, “embora sejam maioria, as mulheres ainda enfrentam dificuldades para progredirem na carreira acadêmica (…) A antropologia serve de exemplo como uma das áreas das ciências humanas que, mesmo com maior concentração feminina (tem média nacional de 70% das egressas no mestrado), observa uma “masculinização” conforme a progressão dos níveis de titulação acadêmica: no doutorado a média nacional de egressas na antropologia, por exemplo, cai quase pela metade.”
“Dados da UfsCar servem de exemplo para esse fenômeno. O curso de ciências sociais, por exemplo, teve, em 2002, uma turma de graduação composta por 12 homens e 23 mulheres. No mesmo ano, no mestrado, o número de homens passa a ser maior do que o de mulheres: 11 contra 8. No doutorado, o número se equipara, e a turma passa a ser composta por 5 homens e 5 mulheres. (…) A redução da concentração do número de mulheres e conseqüente equilíbrio entre os sexos nos níveis mais elevados da academia nas ciências humanas ocorre porque a mulher encontra obstáculos para a progressão na carreira. É o que a antropóloga e representante das ciências humanas na Capes, Miriam Grossi, chama de teto de vidro. ‘As mulheres têm a ilusão de que elas podem subir, mas em algum momento alguma coisa impede’, afirma. Isso faz com que os cargos de diretoria, de chefia e de representação continuem sendo ocupados por homens. Para Grossi, além da discriminação que a mulher sofre no meio acadêmico, outros papéis atribuídos socialmente às mulheres contribuem para o adiamento ou abandono da carreira. Nesse sentido, a historiadora Rachel Soihet acrescenta que a maneira como a sociedade se organizou faz com que a obrigação de socializar os filhos seja feminina. ‘O Estado deveria fazer com que as escolas preparassem essas crianças. Uma readequação do papel da mulher é também um dever do Estado’, afirma Soihet’.”
Afinal, por que a escolha varia tanto conforme os sexos?
Bom, dizer que a escolha da área profissional pode ser atribuída a diferenças entre os cérebros masculino e feminino, como muitos alegam, levanta várias questões; inúmeros estudos avaliam essas diferenças, mas nunca chegam a um acordo. Não podemos negar que podem algumas diferenças podem de fato existir, mas devemos lembrar que elas também acontecem entre indivíduos do mesmo sexo. Da mesma forma, ao avaliar o sucesso de um indivíduo em um campo profissional (e consequentemente o sucesso do grupo do qual ele faz parte), também precisamos considerar os fatores sócio-culturais. Sim, todo mundo sabe que, a par das transformações no mundo do trabalho, a mulher ainda é responsável por uma carga extra de trabalho em casa e com os filhos, e isso inevitavelmente influencia e limita suas escolhas e opções profissionais, bem como sua dedicação à carreira.
E quando os homens buscam profissões consideradas de mulheres? Bem, o grau de inserção masculina varia nas profissões dominadas por mulheres. Em algumas, porém, a predominância é nitidamente feminina, e às vezes é difícil encontrar pelo menos um ser do sexo masculino nas salas da aula. Pois é, a TO é um bom exemplo disso! E as observações colocadas acima, por pesquisadores e profissionais de outras áreas eminentemente femininas, se aplicam ao nosso campo.
Mas até que ponto a predominância feminina afeta o desenvolvimento de uma profissão e seu status?
Atributos tidos socialmente como masculinos ou femininos são importantes e úteis conforme a situação, e o predomínio de homens ou mulheres em determinada profissão deixa evidente um certo desequilíbrio – isso influencia, como já vimos acima, o próprio desenvolvimento de uma profissão, status, visibilidade, relações de hierarquia e até a produção científica. Mas isso vai além de existirem tantos homens ou mulheres exercendo certas profissões.
Para chegarmos a um ponto positivo, na verdade, precisamos enxergar o feminino e o masculino como polaridades complementares, e não como aspectos opostos e conflitantes. Se de um lado, características tidas como femininas são vantajosas para o desempenho de certas profissões, isso não significa que homens não possam desenvolver essas mesmas características, ou que toda mulher tenha que apresentá-las. Ao mesmo tempo, desenvolver características associadas culturalmente ao masculino, como competitividade, assertividade e objetividade, entre outras, também é fundamental para superar esse desequilíbrio e alcançar novas conquistas.
Claro, também, que não precisamos anular as diferenças, e sim saber aproveitá-las em nosso favor. A própria sensibilidade, intuição e delicadeza associadas às mulheres precisam também deixar de ser vistas como características inferiores. Aliás, esses são aspectos cada vez mais valorizados no mundo profissional e mesmo corporativo, e muitas mulheres (e homens) têm aprendido como aproveitar melhor tais características, em seu próprio favor e também do seu grupo.
Veja mais sobre o assunto em:
Edição da revista eletrônica ComCiência sobre mulheres na ciência
Gênero ainda influencia na escolha da profissão
Homens já se atrevem a ter profissões de mulheres
Desigualdade de gênero condiciona escolha de profissão
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as mina:pá
os mano:pow!
abç
e feliz 40 anos de T.O pra nós.
hahahahahaha!!
e parabéns pra todos, minas e manos!
bjos