Tecnologia para auxiliar a escrita

Em 16 de outubro a  BBC News publicou matéria, de autoria da jornalista Jane Elliott (Um robô guia a escrita de Tom), sobre a utilização de um braço robótico como auxiliar no tratamento de crianças com dispraxia (dificuldade de planejar e executar padrões de movimento de maneira habilidosa ou não habitual*). Vejam abaixo partes dessa matéria:


Tom Powis, o mais novo de trigêmeos de 11 anos, tem dificuldades para escrever, usar botões e amarrar cadarços, embora não apresente dificuldades de aprendizagem. A fisioterapeuta Gillian, sua mãe, explica que Tom apresenta dispraxia, o que o deixa frustrado.

Tom precisa treinar continuamente sua escrita, o que ele acha difícil, chato e cansativo. Mas um novo “braço robótico”, que Tom tem utilizado  pelas últimas quatro semanas para praticar suas habilidades motoras finas, pode ser a solução.

O dispositivo foi desenvolvido e testado por uma equipe na Universidade de Leeds na Inglaterra, em colaboração com colegas das universidades de Aberdeen na Escócia e Indiana nos Estados Unidos.  Ele permite que crianças com problemas de coordenação  pratiquem em casa exercícios terapêuticos prescritos usando um sistema desktop interativo, que também pode monitorar como elas se movimentam, através da medida de fatores como suavidade e velocidade do movimento.


Tom utilizando o braço robótico

Os exercícios envolvem o uso de uma caneta, guiada pelo braço robótico, para empurrar objetos ao longo de uma pista 3D na tela do computador. Parece ser uma forma divertida de treinar através de repetição, tanto que os irmãos de Tom (sem dificuldades motoras) também têm se interessado por ele.

O pesquisador Mark Mon-Williams, professor de psicologia cognitiva na Universidade de Leeds, diz que um dos grandes benefícios do sistema é o fato de ele ser portátil e poder ser utilizado em casa. De acordo com a matéria, ao menos 5% das crianças (lembrando que esses dados são para a Inglaterra) são afetadas por dispraxia, e a maioria delas provavelmente não receberá a ajuda necessária devido à grande demanda ou ao limite de recursos em Terapia Ocupacional (alguns podem receber apenas uma sessão por ano). De acordo com Mon-Williams, “Não há terapeutas suficientes para o numero de crianças que têm dificuldades de movimento no Reino Unido”, que completa dizendo que eles precisam buscar tecnologias de auxílio para preencher essa lacuna (vocês vão dizer:  mas aqui tem terapeuta sobrando! Bom, mais ou menos: se considerarmos os terapeutas “disponíveis” sim, mas se fizermos um levantamento das reais necessidades e do número potencial de clientes, veremos que a demanda também é grande aqui – é a velha história do abismo entre as necessidades de saúde da população e seu atendimento efetivo).

Na reportagem, o pesquisador diz que no passado as pessoas pensavam: ‘então, você não é muito bom na escrita ou na cutelaria, mas que problema há nisso?’, o que não é verdade, já que crianças com tais dificuldades podem apresentar outros problemas, relacionados ou não (ok, nenhuma novidade para TOs!).

A mãe de Tom, Gillian, reconhece a importância de se desenvolver a escrita e diz que o dispositivo é também  uma boa diversão,  pois as crianças precisam do input ‘intenso’ e usar o robô com feedback visual torna o aprendizado mais fácil e divertido.

Agora estão sendo planejadas pesquisas para investigar por quanto tempo o robô deve ser usado para se atingir os melhores resultados. Esse sistema básico deve estar disponível para o público em geral em 2012.


Aqui vocês podem ver outras matérias, também publicadas pela BBC News, sobre esse dispositivo: Robot shows children how to move, em junho de 2006, e Home-help for dyspraxic children, em setembro de 2001. Para saber mais sobre outros projetos da equipe de que faz parte o professor Mark Mon-Williams na Universidade Leeds, clique aqui. Esses projetos são relacionados  ao desenvolvimento de avaliações e dispositivos auxiliares de tratamento para dificuldades cognitivas, perceptivas e de movimento em geral (infelizmente, pelo pouco que pesquisei no site, não vi referências à Terapia Ocupacional, mas os projetos e suas aplicações parecem interessantes e promissores).

* Definição retirada do Capítulo 25 – Teorias Originadas das Perspectivas de Desenvolvimento da Criança – parte 3 – Integração Sensorial – de Olga Baloueff, do livro Willard & Spackman Terapia Ocupacional, de M.E.  Neidstadt e E.B. Crepeau. Vejam mais sobre o assunto (em inglês) aqui.

Post relacionado:

Terapia Ocupacional e dificuldades de escrita

Instrumentos de agir e sentir

13 ossos, 19 músculos intrínsecos, tendões flexores e extensores de músculos extrínsecos, fibras nervosas, fáscias, ramos de artérias e veias e uma capacidade surpreendente: expressar nossos desejos, transformar nosso mundo e proporcionar sensações. Através delas, somos capazes de criar, de cuidar, de fazer e de conhecer. Com elas, tocamos e somos tocados, sentimos e somos sentidos. As mãos constituem, de fato, instrumentos maravilhosos para o homem. Muitas vezes, elas são capazes de comunicar até o que os lábios não dizem, ou de perceber o que os olhos não vêem. Por seu intermédio, o homem conseguiu se desenvolver, concretizar seus sonhos e manifestar ideais. São instrumentos refinados e habilidosos – tocam música, realizam operações delicadas e projetam sentimentos e beleza através do papel –, mas também são fortes e intensas quando é necessário segurar firme, bater um martelo com força ou nos proteger. Assim, dispomos em nosso corpo – tão cheio de mecanismos úteis e apurados! – de um maravilhoso meio de expressão e ação. E, como não podia deixar de ser, como Terapeutas Ocupacionais devemos um tributo de reconhecimento a esses instrumentos que nos permitem conhecer e transformar o mundo e precisamos saber intervir quando algo os impede de funcionar devidamente.

Em virtude de sua constituição, funcionamento e posição, as mãos estão sujeitas a sofrer traumatismos que, mesmo quando pequenos em extensão, podem acarretar grandes alterações em sua função motora e sensitiva. Fraturas, queimaduras, acidentes com materiais perfurocortantes e lesões por esforços repetitivos podem prejudicar a mobilidade e a sensação, o que leva a dificuldades na realização de atividades comuns do dia-a-dia como pentear o cabelo, comer e se vestir.

Em se tratando de uma parte do corpo cujas alterações ocasionam grande impacto na funcionalidade humana, a avaliação do Terapeuta Ocupacional deve abranger os aspectos físicos (como força, amplitude de movimento, sensibilidade e alterações em tecidos moles, como edema), de desempenho (verificação das atividades comprometidas e alterações na coordenação, destreza, pinça, preensão e manipulação de objetos) e a repercussão emocional dessas alterações para o cliente.

Conforme a natureza da lesão ou do distúrbio e sua provável evolução, o Terapeuta Ocupacional pode intervir para evitar seu agravamento e manter ou recuperar a função. Quando a função está muito comprometida e não há prognóstico favorável à recuperação, o Terapeuta Ocupacional pode indicar órteses ou próteses, adaptações e dispositivos de auxílio (temporários ou permanentes).

O Terapeuta Ocupacional pode atuar na recuperação de fraturas utilizando-se de técnicas de mobilização articular cuidadosa para evitar danos à mobilidade devido à aderência tecidual e técnicas de redução do edema (inchaço) na região. Em caso de lesões nervosas, em que pode haver comprometimento sério da função motora e sensitiva, a atuação da Terapia Ocupacional é valiosa no sentido de proporcionar orientações quanto à segurança na realização de tarefas diárias, propiciar posicionamento adequado através de órteses durante a fase de imobilização e intervir assim que possível na realização de exercícios e atividades de mobilização e reeducação sensorial. Pacientes que sofreram lesões ou cirurgias em tendões também podem contar com o tratamento de Terapia Ocupacional para que a região seja posicionada e mobilizada na fase e do modo mais adequado, de maneira a facilitar a cicatrização e evitar a aderência tendinosa.

Estes são apenas alguns exemplos, dispostos de maneira superficial, da atuação da Terapia Ocupacional no tratamento de traumatismos e doenças que podem prejudicar a função manual e, consequentemente, a independência e a qualidade de vida dos indivíduos acometidos. A partir destes exemplos, para intervir de forma adequada, compreende-se que o Terapeuta Ocupacional, especialmente o que atua nessa área, precisa conhecer a anatomia e o funcionamento da mão, bem como do membro superior e de todo o corpo (afinal, a mão não funciona sozinha!); é necessário também conhecer a fisiopatologia de acometimentos sistêmicos ou locais que interfiram na função manual e compreender as fases de cicatrização e recuperação de uma lesão. Além de tudo isso, o Terapeuta Ocupacional precisa estar atualizado sobre as técnicas e os protocolos de tratamento mais indicados para cada caso e saber avaliar e intervir sobre os aspectos do indivíduo e do ambiente que interferem na função.

Como podem perceber, trata-se uma área nobre de intervenção da Terapia Ocupacional (na verdade, todas são, rs), ao demandar conhecimentos ao mesmo tempo especializados e abrangentes; também, não poderia ser de outra forma: um instrumento tão refinado como as nossas mãos e capaz de tantas realizações precisa da atenção cuidadosa e da compreensão de um profissional como o Terapeuta Ocupacional, habilitado a compreender desde os aspectos mais concretos – mas não menos complexos e delicados de sua função – até aqueles mais sutis e significativos, que envolvem o próprio sentido de estar no mundo, conhecê-lo e agir sobre ele.

Nossas mãos são como obras de arte que atuam sobre o mundo e imprimem sentido a ele.

Nossas mãos atuam sobre o mundo e imprimem sentido a ele

(Imagens 1, 2 e 6: Leonardo Da Vinci; 1 e 2: estudos de mãos; 6: recorte da Mona Lisa; imagem 3: Albrecht Dürer – Mãos em Oração; imagem 4: créditos de Mark Österberg; imagens 5 e 7: SXC Photos)

Simone, este post é em homenagem a você! ;)

Para escrever este post, eu consultei:

Anatomia Orientada para a Clínica – Keith Moore – 3a edição

Lesões nas Mãos e nos Membros Superiores – Mary C. Kasch e Ed Nickerson – Capítulo 44 do livro Terapia Ocupacional – Capacidades Práticas para as Disfunções Físicas, de Lorraine Williams Pedretti e Mary Beth Early.

Quando uma borboleta consegue sair de sua cela

Assisti ontem ao filme “O escafandro e a borboleta”, que conta a história de Jean-Dominique Bauby, o então editor da revista Elle francesa que, aos 43 anos, sofreu um grave derrame que o deixou paralisado e incapaz de falar. Jean Dominique teve a Síndrome do Encarceramento (Locked-in Syndrome), uma condição neurológica rara, geralmente ocasionada por acidente vascular cerebral, que leva a lesões na região do tronco encefálico. Com isso, as fibras motoras que vêm do córtex cerebral (eferentes motoras) não conseguem enviar sinais ao seu destino, deixando a pessoa lúcida mas com paralisia completa da musculatura voluntária em praticamente todo o corpo, com exceção daquela responsável pelos movimentos dos olhos.

O filme é sensível e pungente, mas sem cair no melodrama. O diretor usa muito o recurso da câmera subjetiva, para que o espectador se veja no lugar do personagem central, o que chega a ser angustiante em alguns momentos. Dessa forma, vemos como a visão de Jean-Dominique ficou reduzida apenas ao que estava ao alcance de seu olho esquerdo (já que o direito precisou ser ocluído). Para se comunicar, ele contou com a ajuda da fonoaudióloga do hospital de reabilitação em que se encontrava, através do uso de uma prancheta que apresentava as letras do alfabeto de acordo com a frequência de utilização na língua francesa. Era um processo demorado e que requeria paciência dos interlocutores e persistência por parte de Jean-Dominique: eles falavam as letras na ordem da prancheta e ele piscava para indicar qual a letra necessária para formar palavras. Apesar da dificuldade, era a forma disponível para ele se comunicar, e foi assim que conseguiu escrever o livro que deu origem ao filme.

O diretor muda alguns detalhes da vida de Jean-Dominique, como mostrar o personagem com três filhos – na vida real ele tinha dois filhos (ok, isso não é detalhe, rs), mas a essência de sua personalidade e de sua experiência conseguiram ser expressadas de forma comovente.

A sua história realmente nos toca, não apenas pelo efeito devastador da síndrome, mas também porque o filme consegue retratar a intensidade e a força criativa do protagonista, apesar de encerrado em seu “escafandro”. Em uma das cenas, ele próprio compara sua situação à de uma panela de pressão, e acho que foi essa a sensação que me deixou com um nó na garganta ao final do filme; o personagem, apesar de imóvel, se mostra cheio de emoção, vivacidade e sensibilidade, e sua mente pode ser comparada a uma borboleta, pois é através dela, de suas histórias, desejos e fantasias, que Jean-Dominique consegue sair e expressar seu mundo. Como ele próprio diz: “Decidi parar de ter pena de mim mesmo. Além do meu olho, há duas coisas que não estão paralisadas: minha imaginação e minha memória”.

 

Em tempo: existe um software chamado Dasher (ver mais sobre ele aqui e aqui) que não requer teclas para o uso. Trata-se uma aplicação gráfica em que se pode apontar para as letras na tela através de um mouse ou qualquer outro dispositivo de indicação, controlado por movimentos dos olhos ou mesmo a respiração.

  
Jean-Dominique com seus dois filhos
Jean-Dominique com seus dois filhos

 

 

Para saber mais:

Sobre Jean-Dominique Bauby, o livro e o filme:

Matéria no Daily Mail (How Jean-Do, my butterfly, escaped his diving bell at last)

Matéria sobre o livro no blog Fono&Cia

Matéria sobre o filme no site Amálgama

Sobre a Síndrome de Encarceramento:

Cyberneuro.net/Locked-in syndrome (em português)

Síndrome do Encarceramento – Wikipedia em português

Locked-in Syndrome – Wikipedia em inglês

Benefícios da atividade física para pessoas com Alzheimer

A Revista Brasileira de Psiquiatria publicou em sua edição de junho deste ano o artigo “Atividade física sistematizada e desempenho cognitivo em idosos com demência de Alzheimer: uma revisão sistemática”, de autoria de Flávia Gomes de Melo Coelho (Unesp), Ruth Ferreira Santos-Galduroz (Instituto do Sono, SP), Sebastião Gobbi (Unesp) e Florindo Stella (Unesp/Unicamp). Vou salientar resumidamente a seguir certos pontos discutidos no artigo, já que alguns dos achados podem ser de interesse para quem trabalha na área e fundamentar intervenções, orientações e encaminhamentos. Para maiores detalhes e informações sobre os achados, a metodologia e as referências, sugiro que consultem diretamente o artigo e sua bibliografia.

Como os autores colocam no início do texto, apesar de ainda não haver um tratamento definitivo e totalmente eficaz para a demência de Alzheimer (DA), farmacológico ou não, intervenções do último tipo também apontam resultados favoráveis no manejo de indivíduos acometidos. Entre estas intervenções é citada a terapia ocupacional, mas o foco do artigo são os benefícios da atividade física para pacientes com DA.

Como o próprio título indica, o artigo foi baseado na análise de estudos (ainda poucos e com falhas no detalhamento dos programas de exercícios e recomendações para a prática, frisam os autores) sobre o efeito da atividade física sistematizada sobre o declínio cognitivo causado pela DA.

Para conduzir a análise, os autores fizeram a busca em várias bases de dados em fevereiro de 2008 e selecionaram apenas os artigos que atendiam a determinados critérios, até ficarem com oito. Entre estes, seis mostraram efeitos benéficos da atividade física sistematizada na cognição de idosos com DA. Alguns deles mostraram melhora em domínios como funções executivas, atenção e linguagem, enquanto outros não detalharam onde aconteceu a melhora.

Em estudos comparando as funções de comunicação de idosos que participavam de grupos de (1)conversação ou (2) caminhada e conversação ou (3) controle, os resultados foram controversos. Em alguns foi observada melhora da comunicação no grupo de caminhada ou no grupo controle, enquanto em outros a melhora foi no grupo de conversação apenas (neste último caso, talvez devido à dificuldade dos pacientes em andar e conversar ao mesmo tempo, ou medo de quedas).

Outros estudos avaliaram apenas o efeito da atividade física sistematizada na cognição e encontraram melhora na função cognitiva global e na atenção. Entre os mecanismos responsáveis pela melhora relacionada aos exercícios, os autores citam a literatura para indicar: aumento na circulação sanguínea cerebral e na síntese de neurotransmissores, aumento do fator neurotrófico de crescimento neural, com repercussão favorável para a plasticidade cerebral, e benefícios psicológicos e sociais. Os protocolos de exercícios desses estudos variaram de exercícios aeróbicos e treinamento com pesos e de flexibilidade a relaxamento e estimulação cognitiva e sensorial, de forma isolada ou combinada.

Na maioria dos estudos analisados, os diversos tipos de atividade física (realizada de forma isolada ou não) foram suficientes para manter ou melhorar temporariamente funções cognitivas de idosos com DA, mas sem chegar a um critério padronizado de recomendações sobre tipo, intensidade e duração necessários para produzir benefícios. Também não foi possível especificar as funções cognitivas mais sensíveis ao exercício físico.

Os autores ainda citam um estudo experimental com roedores, que verificou que exercícios físicos induzem o aumento dos níveis do fator neurotrófico de crescimento neural e o desenvolvimento de novos capilares sanguíneos em determinadas áreas do cérebro. Em outro estudo, foi observado aumento do volume da substância cinzenta no córtex frontal e temporal e da substância branca em regiões anteriores do cérebro em indivíduos idosos que participaram de um programa específico de exercícios aeróbios por seis meses (de acordo com os autores, as mudanças podem ser decorrentes de uma melhor perfusão cerebral nessas regiões). Alguns autores sustentam ainda que a atividade física aeróbia induz a proliferação e a proteção celular, além da plasticidade sináptica.

O artigo é concluído indicando a necessidade de mais estudos para determinar de forma mais clara os procedimentos de intervenção motora e estimulação cognitiva mais apropriados para prevenir ou atenuar o declínio cognitivo observado na DA.

Apesar dos estudos disponíveis não esclarecerem os mecanismos envolvidos ou definirem procedimentos mais detalhados para orientar um tratamento, acredito que os resultados do referido artigo são interessantes e apontam (ou confirmam) caminhos para a intervenção para profissionais de várias áreas. Cabe ressaltar que tais resultados também ratificam a necessidade de uma intervenção multiprofissional em casos como a DA, em vista da variedade de comprometimentos e necessidades dos indivíduos acometidos. Assim, os profissionais envolvidos precisam estar atentos a descobertas de áreas afins que possam trazer benefícios para o tratamento, para serem capazes de orientar a família e os responsáveis e realizar encaminhamentos para outros profissionais, clínicas ou serviços, caso necessário.

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Exercícios físicos podem trazer diversos benefícios, não apenas físicos

Demência: princípios gerais de avaliação e tratamento de TO

Já delineamos as principais alterações comportamentais e neurológicas que acontecem em indivíduos acometidos por síndromes demenciais. O processo terapêutico inicia-se com a avaliação, que tem o propósito de identificar as capacidades, disfunções, demandas e o contexto do cliente para delinear o(s) objetivo(s) e o plano de tratamento (reavaliações ao longo do tratamento também são importantes). De acordo com o contexto de tratamento e disfunções associadas, além da experiência e dos fundamentos teóricos utilizados pelo terapeuta, a avaliação pode levar um tempo variável e priorizar determinados elementos, mas os aspectos básicos a serem abordados são:

- Avaliação do desempenho ocupacional: em indivíduos com acometimentos cognitivos certas dificuldades na realização de atividades diárias são comuns e até previsíveis, mas a avaliação deve ser sempre direcionada àquele cliente específico. O terapeuta pode utilizar vários instrumentos padronizados e recursos (como entrevista e questionário com o cliente ou cuidadores, observação, entre outros) para determinar, entre as áreas de desempenho (atividades de vida diária, lazer e trabalho), quais são as mais prejudicadas pelo transtorno. Além disso, são determinadas quais atividades o cliente e/ou cuidadores consideram mais importantes desempenhar de forma satisfatória. A partir daí, o terapeuta precisa identificar os pontos que mais interferem na realização de tais atividades: por exemplo, o terapeuta pode identificar que o cliente gosta de sair para fazer compras mas está com dificuldades para se orientar, selecionar os produtos e lidar com dinheiro, além de problemas relativos à segurança no seu trajeto de ida e volta.

- Avaliação de componentes do desempenho: (obs.: para quem não sabe o que são, podemos entendê-los como elementos e habilidades básicos – sensório-motores, cognitivos ou psicossociais – para o desempenho de atividades). No caso de clientes com quadros demenciais, a atenção do terapeuta se volta especialmente para os componentes cognitivos (ex.: orientação no tempo e no espaço, atenção, memória e aprendizado) e psicológicos/psicossociais (ex.: conduta social, alterações no humor, comportamento), que podem ser avaliados por meio de diversos testes padronizados disponíveis e entrevistas. No caso exemplificado acima,viu-se que o cliente apresenta dificuldade para lidar com dinheiro, que pode ser devida à discalculia; o terapeuta ocupacional então examina a habilidade do cliente para fazer cálculos para verificar se ela  é realmente a causa da dificuldade apresentada (pode ser que o cliente tenha apenas dificuldade para enxergar o dinheiro). Da mesma forma, dificuldades no trajeto podem ser devidas a alterações de memória (o cliente pode esquecer como voltar para casa) ou comprometimentos físicos, como dificuldade de equilíbrio.

- Avaliação ambiental: uma avaliação cuidadosa do ambiente é fundamental para o tratamento de clientes com quadros de dêmencia e envolve a avaliação do ambiente domiciliar e extradomiciliar, conforme o caso, para verificar aspectos como pistas visuais e auditivas que influenciam a orientação temporal e espacial, acessibilidade e segurança.

Após avaliar esses aspectos, o terapeuta consegue identificar quais são as prioridades no tratamento e como abordá-las. Uma prioridade é estimular as funções preservadas e tentar manter, recuperar ou melhorar as funções alteradas, a fim de preservar/aumentar a independência e autonomia do cliente e garantir sua qualidade de vida. Isso pode ser feito através da realização de diversos tipos de atividades adaptadas e de interesse para ele, para que se sinta motivado a participar o máximo que puder, especialmente no seu cotidiano, mesmo com a progressão da incapacidade cognitiva. Organizar a rotina e o ambiente também é importante para que o contexto seja favorável à orientação do cliente. No caso de uma pessoa com dificuldades para se orientar em sua própria casa, podem ser inseridas pistas no ambiente para que ela se localize. Pode-se também orientar a família e cuidadores para evitarem mudanças drásticas na organização e decoração da casa, já que essa pessoa teria muita dificuldade para se adaptar a um novo ambiente. Aliás, a educação da família é fundamental para que todos compreendam melhor a doença e sua progressão, e quais medidas podem facilitar o dia-a-dia.

No caso fictício do nosso cliente com dificuldade para fazer compras, ele pode fazer questão de sair para isso, mas se sentir desorientado com o excesso de pistas no supermercado e na rua (e se perder), ou então ser incapaz de conferir o troco (e perder dinheiro). De acordo com o contexto, a intervenção pode variar: um responsável, devidamente orientado pelo terapeuta, pode acompanhá-lo em seus passeios e ajudá-lo com pistas nos momentos de dificuldade. Em outros casos, talvez os familiares julguém que não é mais conveniente ou possível que o cliente continue fazendo essa atividade. O terapeuta pode então, em conjunto com o cliente, procurar alguma outra atividade igualmente significativa e prazerosa para ele e que ao mesmo tempo estimule suas capacidades cognitivas. Ou talvez a solução seja bem diferente dessas duas, conforme a situação.

Como se percebe, a intervenção do terapeuta ocupacional com essa clientela acontece em vários níveis e envolve diferentes tipos de recursos. Os focos de intervenção e os recursos são escolhidos de acordo com as demandas, necessidades, preferências e histórico do cliente e contexto ambiental e socioeconômico. Por fim, é importante ressaltar que, mesmo com o comprometimento progressivo ocasionado pela demência, muitas medidas podem ser tomadas para minimizar os efeitos desse comprometimento na qualidade de vida dos clientes e de suas famílias.

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Demência: breve explicação sobre alterações comportamentais e neurológicas

Para saber mais:

Avaliações

Diagnóstico de doença de Alzheimer no Brasil – Avaliação Cognitiva e Funcional

Adaptação transcultural da escala de avaliação de incapacidade em demência (Disability Assessment For Dementia – DAD)

Validade da versão em português da Clinical Dementia Rating

Demência de Alzheimer: correlação entre memória e autonomia

Tradução, adaptação e validação de construto do Teste do Relógio aplicado entre idosos no Brasil

Comparison between neuropsychological evaluation instruments for severe dementia

Terapia Ocupacional

Assistência terapêutica ocupacional para pacientes com demência

Monografia: A atuação da TO junto ao paciente com demência

Occupational Therapy Intervention – Dementia

Occupational therapy practice and people with dementia: reviewing the evidence base

Study shows the value of occupational therapy in dementia

Tratamento (geral)

Tratamento da doença de Alzheimer: recomendações e sugestões do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (Arquivos de Neuropsiquiatria)

Declínio cognitivo e demência associados à doença de Parkinson: características clínicas e tratamento

Informações úteis para familiares e profissionais

Informações e links úteis para familiares e cuidadores de idosos

Dementia: Info and Advice for Caregivers

Caregiver’s Guide to Understanding Dementia Behaviors

Demência de Alzheimer: correlação entre memória e autonomia

Terapia Ocupacional e dificuldades de escrita

Vi hoje na edição online da revista Istoé uma reportagem sobre crianças e adultos com dificuldades para escrever à mão (Uma realidade nas escolas: Eu não sei escrever em letra cursiva). Claro que pensei: puxa, também tem a ver com nossa profissão, mas é óbvio que não vai ter nem cheiro de TO no artigo.

Como em outras matérias desse tipo de publicação, o tratamento do assunto é resumido e mais superficial, com o objetivo de proporcionar uma visão geral, porém foram abordadas questões importantes.  No entanto, a seguinte colocação me deixou intrigada:

“(…), psicóloga e presidente da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade, acredita que os cadernos de caligrafia não resolvem o problema. Para ela, a falta de espaço para brincar e a vida sedentária comprometem o tônus muscular das crianças, que ficam sem coordenação motora e destreza para lidar com o lápis (destaque meu).

‘Elas precisam participar das atividades domésticas que exijam alguma habilidade manual’, afirma.”

Em seguida, um médico entrevistado esclareceu a questão acima:

“Para o neurologista Marco Arruda, a escrita está mais relacionada com as funções do cérebro do que com a tonicidade dos músculos e ele alerta que a escrita ilegível pode ser um sinal de enfermidade ou transtorno psicológico, como dislexia, déficit de atenção e hiperatividade.”

É preciso treinamento da letra com sessões de reabilitação“, afirma. O neurologista lembra que brincadeiras fora de moda com bolas de gude e palitinhos, além das aulas de caligrafia, favoreciam o desenvolvimento psicomotor da criança, que não tem os mesmos estímulos nos jogos eletrônicos de hoje.”

Acredito que nem é necessário falar a respeito do alegado comprometimento do tônus muscular devido ao estilo de vida das crianças (é evidente que os hábitos  interferem na habilidade de escrever, mas não no tônus). A estreita relação da habilidade de escrever com as funções do cérebro, no entanto, é fato. Vários de vocês já devem ter atendido clientes de várias faixas etárias com dificuldades na escrita devido a transtornos neurológicos. Entre estes, as dificuldades podem estar associadas ou não a alterações no tônus muscular (que causam, por exemplo, dificuldade na preensão do lápis e na movimentação e no deslizamento do membro superior sobre a mesa) – e, para quem não é da área, esclareço que alterações no tônus são relacionadas a alterações no sistema nervoso. Me parece, no entanto, que o neurologista, ao falar das funções cerebrais, quis se referir a alterações cognitivas ou comportamentais, que também podem ocasionar problemas na escrita.

A demanda dos clientes traz outra questão, também colocada na matéria:

“Apesar da alternativa da tecnologia, ter letra legível (e bonita) ainda é importante.” Já zerei provas no vestibular porque estavam incompreensíveis”, afirma José Ruy Lozano, corretor de redações dos principais processos seletivos de São Paulo e professor de redação do ensino médio do Colégio Santo Américo. Vale lembrar que as redações de vestibular também podem ser escritas em letras de forma. Mas a cursiva ainda conta pontos, por exemplo, em processos de seleção de emprego.”

Com a difusão da tecnologia é realmente difícil prever até que ponto a necessidade de escrever com letra cursiva ou de forma será importante. Muitos podem afirmar que escrever à mão não é mais tão relevante. Outros podem argumentar que essa habilidade, a despeito do uso do computador e  do celular, continua sendo fundamental. Na clínica, porém, o que vai fazer a maior diferença serão as demandas do cliente ou de seus responsáveis. Afinal, um cliente pode não sentir a necessidade de abordar tal dificuldade e ficar plenamente satisfeito com outras alternativas para a comunicação escrita, enquanto outro pode considerar a habilidade de assinar seu nome  de maneira legível como um objetivo primordial do tratamento. Neste caso, ele se sentirá motivado a aprender estratégias para melhorar seu desempenho nessa área, o que é essencial para o sucesso do tratamento, como vocês já sabem.

Mas a questão mais preocupante é: até que ponto pessoas com dificuldades nessa área (ou seus responsáveis, de acordo com o caso) sabem que podem procurar atendimento de Terapia Ocupacional, no contexto educacional ou clínico? A resposta, também, vocês já devem saber.

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Tecnologia para auxiliar a escrita

Demência: breve explicação sobre alterações neurológicas e comportamentais

O termo demência costuma ser utilizado com mais de uma acepção: é comum ouvirmos alguém falar que certa pessoa está ou é “demente” para dizer que ela tem algum problema mental, de qualquer ordem. De fato, o termo já foi usado até na literatura médica com esse sentido mais amplo, e sua própria origem denota isso: a palavra demência deriva do latim dement-, demens+ia, que significa “estar fora da própria mente”.

Hoje em dia, o termo é utilizado na área da saúde para se referir ao comprometimento da função cognitiva adquirido, generalizado e geralmente progressivo, com modificações no comportamento e na personalidade do indivíduo, mas sem afetar o nível de consciência.

A demência é uma síndrome e pode ter diversas causas, sendo a doença de Alzheimer a mais comum. Outras causas incluem doença de Huntington, câncer, AIDS, neurossífilis, doença de Parkinson, alcoolismo e demência vascular.

Apesar de sua etiologia continuar indefinida, têm ocorrido avanços consideráveis na compreensão de seus mecanismos bioquímicos e genéticos.Nos quadros de demência as lesões geralmente são localizadas de maneira difusa pelo cérebro. As alterações neuropatológicas e bioquímicas podem ser divididas em dois tipos gerais: modificações estruturais (que envolvem morte neuronal, por exemplo) e de neurotransmissores.

Embora a maioria das demências seja irreversível, existem algumas tratáveis e potencialmente reversíveis, como aquelas causadas por deficiência de vitamina B12 ou por hipotireoidismo. Quanto ao curso, os quadros de demência podem ser estáticos, progressivos ou remitirem, de acordo com a causa.

Nos casos em que o paciente apresenta modificação no nível de consciência (isto é, está confuso ou sonolento) não é possível diagnosticar demência, já que o seu estado interfere em uma avaliação adequada de áreas como memória e orientação no tempo e no espaço, por exemplo. Além disso, alguns transtornos podem apresentar sinais e sintomas semelhantes a quadros de demência, e é necessário uma avaliação clínica para distinção e diagnóstico corretos.

Entre as alterações mais comuns e que podem alertar para a necessidade de avaliação estão:

  • Problemas de memória: podem se apresentar como dificuldade persistente de aprender coisas novas, que são rapidamente esquecidas, ou para se lembrar de outras, remotas ou recentes. Em estágios mais avançados, o indivíduo tem dificuldade para se lembrar até de parentes próximos e acontecimentos marcantes em sua vida;

  • Distúrbios visuoespaciais: a pessoa começa a se perder com frequência em trajetos familiares e, em estágios avançados, dentro da própria casa;

  • Dificuldades de linguagem: podem surgir dificuldades de achar e listar palavras, compreender uma conversa e o discurso pode ficar mais pobre e vago, geralmente em fases mais tardias;

  • Dificuldades para cálculos simples (a avaliação desse aspecto depende da escolaridade e ocupação do indivíduo): pode ser percebida como dificuldade em lidar com o dinheiro, por exemplo.

 

Outras alterações cognitivas e de comportamento podem estar presentes e serem mais ou menos difíceis de detectar, de acordo com a personalidade, escolaridade e ocupação prévia ou atual do indivíduo, por isso o acompanhamento de um profissional da área é importante.

Como é possível perceber, as alterações descritas costumam ter um impacto significativo no dia-a-dia das pessoas acometidas e das suas famílias. Então, em um próximo post, vou falar sobre os princípios e orientações gerais do tratamento de Terapia Ocupacional direcionado a essa clientela.

 

Diferenças entre um cérebro normal e um com Alzheimer nas áreas de linguagem e memória. Em certos casos de demência, no entanto, tais alterações podem não ser tão evidentes.

Diferenças entre um cérebro normal e um com Alzheimer nas áreas de linguagem e memória. Em certos casos e fases de demência, no entanto, tais alterações podem não ser tão evidentes.

Post relacionado:

Demência: princípios gerais de avaliação e tratamento de TO

Para saber mais:

Convivendo com Alzheimer: informações gerais sobre os tipos de demência

Doença de Alzheimer – Associação Brasileira de Neurologia

Estudos brasileiros na área das demências – Associação Brasileira de Neurologia

Informações sobre demência – Manual Merck

Informações sobre demência – Medicina Geriátrica

Sintomas neuropsiquiátricos nas demências: relato preliminar de uma avaliação prospectiva em um ambulatório do Brasil – Arquivos de Neuropsiquiatria

Dementia Overview (Emedicine Health)

Dementia – Medline (Medline Plus)

Dementia – MedicineNet

 

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